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Quando eu fazia cursinho, via os interessados em cursar arquitetura com umas pastas enormes , uma cara de gênios em criação , maus alunos em exatas, mas espirituosos e o que era o mais interessante, era um ou outro homem, e muitas mulheres lindas, as melhores da classe.
Depois quando eu entrei na Poli, toda vez que eu começava a puxar assunto com alguma menina de qualquer outra faculdade, ela começava a se empolgar com as minhas estórias até o ponto dela perguntar se eu fazia FAU. Como eu nunca fui de mentir , dizia a verdade. Elas , sem exceção, faziam uma carinha de decepção e me deixavam sozinho , naquele imenso e solitário campus.
Uma vez, uma colega minha do Anglo, uma loirinha riquinha, gracinha, que fazia arquitetura no Mackenzie, me encontrou, já estávamos no segundo ano dos nossos respectivos cursos. Já estava até achando que era papo perdido, nunca uma arquiteta iria querer falar com um estudante de engenharia. Mas não, ela tinha curso de francês na Aliança, em frente ao Rei das Batidas. Pediu para esperar . Claro , esperei. Na saida, me convidou para irmos num motel. Aquilo parecia uma obra do Frank Lloyd Wright, do Niemeyer, era um autêntico plano piloto.
Bem, poderia ter sido uma noite normal, se não fosse o excesso de pó que a menina consumiu. Ela quase que precisou de um estudante de medicina.
Nunca mais quis saber de arquitetos ou arquitetas. Que vivessem o seu mundo de retas e curvas.
Mas eis que abro o meu e-mail e recebo de uma tal Câmara de Arquitetos, a oferta de um curso de sustentabilidade na construção.
E eu, cada vez mais desconstruido pelo tempo, nem sei como me sustento.
Cada coisa que me mandam...

Alcyr Pires Vermelho foi parceiro de Caymmi, Ary,Lamartine Babo, Braguinha. Mas fez muito sucesso com um samba que ele e Valfrido Silva fizeram para Carmen Miranda, o Tic-tac do meu coração ( que o Ney Matogrosso fez uma versão) e numa parceria com o jornalista David Nasser, a sua música mais conhecida: Canta Brasil, (no ar,no mar,na terra, canta Brasil), com excelentes versões da Gal Costa e do João Gilberto.
Mas pelo visto, são duas canções dele , com o Alberto Ribeiro , que estão mais na moda nos dias de hoje. A primeira, imortalizada pelo Dick Farney, O Barqueiro do São Francisco. Afinal, o Danilo Gentini , do Custa o que Custar perguntou para o Irmão do Genro do Ano se transposição de rios de dinheiro para a casa da sogra era um projeto do PAC...
Mas a outra canção da dupla, o Sorriso do Presidente, é aquela que manda colocar o retrato do velhinho no lugar, que o sorriso do presidente faz a gente trabalhar. Era para o Getúlio, quando em 1949 ele disse que sairia da fazenda para o Catete.
O gozado é que Get[ulio tinha engordado e não tinha terno para a posse.Fez dois, fiado, pagou em prestação, do próprio bolso.
Naquele tempo não havia cartão corporativo.
Outros tempos, outros tempos.
Estranhos são os critérios na Espanha. A Argentina pediu a deportação da Isabelita Peron, aquela que era dançarina no Paraguai e virou a primeira presidenta argentina. Os espanhóis disseram não.São crimes contra humanidade, tortura, sequestro, essas coisas.
Já os nossos meninos e meninas, são deportados na base do sienta e callate.
Em agosto de 2007, minha turma de ginásio, depois de 35 anos, resolveu se encontrar.Pensei em não ir. Não tenho boas recordações daquela época, eu era um tímido e apagado menino. Mas começaram os insistentes pedidos, as trocas de e-mails; acabei cedendo.
Logo que entrei no bar, encontrei a Christina D'Albertas, espigadita, como na canção Marcianita, ela segurava um caderno antigo. Quando me viu, me chamou pelo nome,me pediu que contasse uma estória:"você sempre lendo, me contava estórias, eu gostava".
Pois contei a estória de um homem que andava na Rocha Azevedo e encontrou uma lâmpada mágica. Esfregou-a e veio o gênio, que lhe ofereceu três pedidos na hora e mais dois no futuro.
O homem pediu para voltar nos tempos do ginásio e encontrar uma garotinha que ele queria namorar. Seu desejo se realizou. Mas, que coisa, os dois meninos , com menos de quinze anos, choravam. É que ela iria trocar de escola e eles não iriam mais se ver.Bom, ele quis, no segundo pedido, reencontrar a menina nos tempos da faculdade. Aí eles estavam num barzinho perto da Cidade Universitária. Tinham acabado de participar de uma passeata, por mais verbas para educação. Tão bonitos eles eram que logo uma morena olhou para ele, um rapaz alto olhou para ela e cada um saiu com novo par.
No último desejo, ele quis tê-la, para sempre. E aí ele encontrou-a linda, numa balsa cruzando um canal. O sol no seu rosto, de perfil, ela parecia uma efígie de moeda. Mas a balsa atracou e ela desapareceu. O homem chamou o gênio, desesperado. Que, calmamente , respondeu que ela iria, com aquela imagem, acompanhá-la para sempre...
Chris olhou-me, com o rosto dos traços infantis e deu um sorriso. "Esta é uma estória bem bonita, podia ser a gente. Mas acho que você fala isso para todas" ´"É, respondi.Eu só troco o endereço". Ela riu, eu me lembrava que ela morava na Ministro Rocha Azevedo quando era ginasiana.
Aí eu perguntei sobre o seu caderno. Era daquela época. Ela mostrou a contracapa. Tinha o nome de todos e o que queriam ser. Médicos, professores, jornalistas,matemáticos, políticos. O meu nome tinha um espaço em branco na frente. Chris, animada então disse:" coloca o seu desejo, você ainda tem os dois , do gênio. E fica o último prá mim. Mas vê se não vai desperdiçá-lo"
Escrevi, com a caneta do garçom emprestada, que queria ser um sonhador.
Ela leu e disse que o meu desejo havia se realizado. E o dela? Chris pediu para que eu fizesse no dia 29 de abril, seu aniversário, tão distante daquele agosto."Mas você vai se esquecer..."
Bem, eu não esqueci.
O meu desejo é toda a felicidade possível e impossível para seus muitos dias daqui prá frente.
Chris, um beijo, do seu tímido e apagado colega de ginásio.
