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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2008, 23

23.07.08

O perigo dos livros perigosos

Para quem me acha direitista, bem, vamos lá, eu me lembro de uma livraria chamada Ler que ficava ( acho que ainda fica, mas virou casa de sucos e lanches na frente e alguns livros na parte de trás) na Praça da República. Os seus dois donos eram o Pedrão e o Lenine ( que não se perca pelo nome). O forte da livraria eram os livros de sociologia da Editora Zahar, mas havia aquele marxismo, gramscismo, lacanismo, enfim, ismos prá dar e vender. Aliás, com alguma imaginação, você poderia se sentir em Paris naquela região de São Paulo, principalmente com a São Luis lindissima.

Bem, talvez Buenos Aires , vai, Paris é exagero.

Mas a livraria era sempre vigiada por gente da polícia e de vez em quando, davam uma prensa no comprador. Acho que a livraria servia como se fosse uma ratoeira. Mas o Pedrão e o Lenine , quando viam que a coisa iria pegar, davam o toque, " moleque, hoje a boca tá quente". E você tinha que pirulitar sem olhar prá trás. Às vezes era algo meia boca. Você comprava o livro, mas dava uma despistada, ia pelas ruas da Vila Buarque, dobrando todas as esquinas. Acho que até portar drogas era mais seguro. E ainda havia a paranóia de algum tira querer revistar a sua casa. para achar a literatura subversiva.

 

Bem, eu nunca poderia imaginar  que isso voltaria a acontecer no Brasil de hoje. Ontem, no Rio, a polícia prendeu o deputado Natalino Guimarães que estava reunido com os seus amigos. Lá encontraram não literatura da pesada, mas um fuzil, duas espingardas, quatro pistolas,uma submetralhadora, quatro facas, algemas e fardas da PM.

Talvez , se tivessem procurado melhor, achariam o Memórias de um Sargento de Milícias.   

 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 16:20:23

Quatro tiozinhos

categorias: música

Tive a oportunidade ( opa, essa palavra é perigosa ) de ouvir três novos cds que sairam nesta semana, de artistas da velha guarda. São eles Buddy Guy, David Bowie e um disco da pouco usual dupla Willie Nelson e Wynton Marsalis.

Começamos pelo mais antigo. Live in Santa Monica 72, é um disco que andou rolando pirata faz algum tempo. Bowie está com a banda Spiders of Mars, com o maior destaque sendo o guitarrista já falecido Mick Ronson. Era aquela fase muito andrógina, muito cheirada, mas com o fortíssimo disco Ziggy Stardust para ser trabalhado. Foi a fase mais criativa da Tia David , mas o sucesso, pelo menos americano, não veio naquela década. Se escutarmos os discos ao vivo que ele gravou na década de oitenta( com Stevie Ray Vaughn,por exemplo), Santa Monica tem quase um carater amador. Mas não deixa de ser interessante. Principalmente uma versão de Space Oddity, com dois violões, e Bowie e Ronson cantando quase no mesmo tom. Eu disse quase.

Já o mais novo, Skin Deep, mostra o grande blueseiro Buddy Guy é uma maravilha. Guy, depois que botou Jagger e Richards para correr no filme do Scorsesse, mostra que está quase chegando no degrau de um BB King. Tem lá os seus convidados de sempre ( Clapton e Derek Trucks) e é um disco de blues com gosto de café expresso.

O mais badalado é o do Wynton e Willie, com uma levada também blueseira , muito bem tocado, ensaiado, agradável para todos os gostos. Típico disco para se dar de presente, seja quem for o aniversariante. Nelson canta Stardust e Georgia on My Mind , afinal, há todo o culto dos trinta anos do lançamento do disco Stardust, que ele gravou só com os clássicos do repertório americano.

Não são discos de te fazerem ficar a noite inteira ouvindo, mas tem muito mais qualidades do que defeitos. Aliás, como eu uma vez escutei duas jovens garotas falarem , num barzinho, "sair com tiozinho até que não é mau, eles nunca te levam para lugar ruinzinho." 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 15:53:18

Vai ser um sucesso o leilão sobre o fracassado

categorias: filosofia

As pedagogas que me desculpem, mas nada mais furado que relatórios sobre o aluno.Normalmente eles não dizem nada, mas quando dizem ( se é que entendemos o estilo cognitivo, a palavra é sempre essa) sugerem o oposto.

 Uma amiga minha, professora, disse que tinha um aluno chamado Ricardo e que ele era igual a mim. Um avoado, no mundo da lua.

Bem, confesso que realmente olhar para o infinito nas aulas fez parte do meu currículo, e acho que sobrevivi bem .

Mas foi achado um relatório de uma professora do primário do aluno John Lennon. E ela escreveu que o pequeno John iria "certainly on the road to failure". Isso mesmo, o cara vai ser um fracasso.

O que a professorinha nunca poderia imaginar  é que leiloarão essa  sua previsão funesta , por uma grana preta como lance mínimo.

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 11:54:09

Miniliteratura

categorias: literatura, Poli #USP 6

Escrever mensagem no celular é um saco. Ler na tela de um computador é chato. Mas parece que a moda veio para ficar. Há quem defenda literatura no celular, filmes, jogos, se bobear, até sexo.

Penso em Hemingway , que um dia escreveu um mini-conto, que, segundo ele, era a sua maior obra: " À venda,sapatos de bebê, nunca usados". E o conto acabava por aí.

Ou então num clássico do meu amigo José Geraldo Simões Jr. Ele viajou e sua família pediu para que ligasse ao chegar no seu destino. Preferiu mandar um telegrama. Que continha apenas a seguinte frase.: "OK".

Perfeito.

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 11:30:01

Chandler by Wilder

categorias: kino

Deliciosa entrevista do Billy Wilder, o diretor de cinema, para a série Paris Review. Ele conta do seu trabalho em conjunto com o escritor Raymond Chandler como roteirista. A estória é a seguinte. James Cain fez o maior sucesso com The Postman always rings twice, que foi filmado com o John Garfield e a inesquecível Lana Turner e depois refilmado com o Jack Nicholson e a Jessica Lange. Bom, aí a Paramount resolveu filmar outro livro do Cain ( que é praticamente idêntico) Double Indemnity. Mas o Cain tinha um contrato com a Fox, o jeito era usar um outro roteirista. Escolheram o Raymond Chandler.

Foi uma péssima escolha, porque o Chandler tinha a maior inveja do sucesso do Cain e achava tudo que o colega escrevia bullshit. Mas aceitou a tarefa. Veio , segundo Wilder, com um roteiro de oitenta páginas totalmente inútil. Resolveram trabalhar juntos. Wilder gostava do Chandler frasista. A frase " não existe nada mais vazio que uma piscina sem água" era um achado, segundo o cineasta austríaco.

Chandler era vinte anos mais velho que Wilder e era casado com uma mulher dez anos mais velha que o marido. Uma semana que os dois trabalharam juntos e a coisa estava andando bem. Até que Chandler desapareceu. Wilder mandou ligarem para ele. Pois Chandler disse que não trabalhava com uma pessoa grosseira que tinha lhe pedido para fechar a cortina do escritório e esquecera de pedir por favor.

Wilder não se conformou com este absurdo e foi, pessoalmente, ouvir a real causa. Pois Chandler se abriu. Que a sua mulher não permitia que ele trabalhasse com um sujeito que bebia três martini na hora do almoço e que ligava para mulheres durante o expediente. Wilder argumentou que ele era jovem e solteiro, mas Chandler estava irredutível. Tinha prometido se afastar da má companhia.

E assim foi um adeus irmãozinho. 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 11:06:49