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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2008, 04

04.08.08

Simplicidade

categorias: filosofia

A Dona Denise me pediu para arumar a minha parte do armário. É que no lado inferior, atrapalhando as camisas, ficava um monte de pastas, envelopes e papéis avulsos. Na maioria dos casos, eram recibos e comprovantes de pagamento. No Brasil a gente sempre tem que guardar comprovantes. Sempre vem um sujeito e diz que você se esqueceu de quitar uma oitava cota referente ao terceiro ano de sei lá o que.

Com muita má vontade, comecei a rasgar tudo. Até olhar para o interior das roupas. Muitas eu nunca usaria mais. E assim , pensei, como juntamos quinquilharias.

Quando nos mudamos para o apartamento, vinhamos de uma casa muito maior. E eu achei que no apê não caberia nada. Claro, logo percebi que havia muita tralha.

Tanto eu , quanto a Dê, ao nos separarmos dos casamentos anteriores deixamos quase tudo prá trás. Quando começamos a morar juntos,  havia a simplicidade , o estritamente necessário, o pouco que é o suficiente. Mas aí, como tudo na vida, fomos comprando, guardando, juntando, e não que eu esteja reclamando, mas tenho um pouco de saudade daquele tempo de pouca coisa que dividíamos.

Neste semestre, fomos convidados para três casamentos. E uma das dificuldades em presentear os noivos de hoje em dia é que eles já possuem  tudo. Talvez  falte aos casais novos a simplicidade . O comprar pão logo cedo , o compartilhar das tarefas , o tempo . Mas por outro lado, tudo é estresse; muito é o trabalho, a correria.

Um casal de amigos meus, casados há mais de vinte e cinco anos, começaram as noites conjugais dormindo numa cama de solteiro. Claro, eles têm as suas crises, mas tenho a sensação que o que une as pessoas é o inverno dos primeiros dias. Talvez este seja o segredo. Começar a vida no inverno, para termos no final, um verão.

Hoje , na hora do almoço, um estudante de medicina reclamava para outro que a sua televisão , com tela plana , era uma droga para jogos de playstation, acho que sua queixa era essa.

Penso quando o Julinho juntava um bando de colegas para jogar um supernintendo numa televisão velha. E todos eram muito felizes.

A Dona Denise sempre diz :" eu queria uma vida simples".

Pois eu acho que a entendi, quando rasgava tantos comprovantes de pagamento, na manhã de sábado.   

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 16:52:21

Os arautos da democracia

categorias: afonsocelsices

O que faz o Brasil não ser nem um pouco democrático ou culto é o fato de haver gente que bate no peito com vigor e se diz democrata . Ou intelectual.

Por exemplo, soube que o Professor Celso Lafer notificou , extrajudicialmente, a Editora Planeta, que apenas publicou a biografia do nosso mega-escritor Paulo Coelho. É que o Boswell do Mago, o quercista Fernando Morais, disse que o então chanceler Lafer transformou o Itamaraty num bunker para cabalar votos para o intelectual Hélio Jaguaribe , para a eleição da Academia Brasileira de Letras . Mas não adiantou nada, pois o Paulo Coelho venceu.

Cá entre nós, esse tipo de futrica não merecia nem um minuto de atenção.

Disse o juiz da Suprema Corte, no começo do século passado, Oliver W, Holmes Jr que devemos sempre cuidar para que ninguém impeça a expressão daquelas opiniões que realmente odiamos.

Isso é democracia. E o Holmes não precisou da Hannah Arendt para chegar nesta conclusão.

Mas o mais triste é cabalar voto para um enganador de largos períodos como o Hélio Jaguaribe.

E por falar em chanceler, uma coisa Belle Époque são as alfinetadas do Felipe Lampréia contra o atual chanceler brasileiro. É um misto de Ronaldo Esper com Francisco Petrônio.

Meu Deus, como cantava um brasiliense, que país é esse...  

 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 16:03:33

Satchmo 107 anos

categorias: música

Dizzy Gillespie falou : "se não fosse ele, não seríamos".

Miles Davis disse: " tudo que você toca num trompete, ele já tocou antes".

Esse ele é Louis  Armstrong, que nasceu no dia 4 de agosto de 1901.

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 15:53:14

A aranha de nylon

categorias: recuerdos

Quando eu era pequeno, um comediante chamado Walter Dávila fazia muito sucesso. Ele tinha uma cara gozada, falava rápido e parecia sempre muito burro. Mas tinha lá a sua graça. Uma vez, a sua filha foi morar com o marido num apartamento do prédio que eu morava , no mesmo andar. Lembro-me, tinha eu uns dez anos, e encontrei com ele no hall, saindo do elevador. Ao invés de tomar um susto, comecei a rir. E ele, falando rápido apenas comentou, "tá achando graça do que, você acha que eu sou comediante?".Ele devia falar isso para todos que riam da sua cara engraçada.

Ele representava vários personagens, mas o mais famoso era o Senhor Obturado. Este senhor se sentava num banco da praça, com um livro e demonstrava que a leitura lhe era muito agradável. E dizia para si mesmo : "formidável..." Aí o vizinho de banco, que era o Manoel da Nóbrega, se interessava pelo livro , se empolgava e começava a contar a estória. Quando via, ele tinha estragado toda a leitura, pois contava tudo. O tal Obturado, depois de um tempo, se irritava, deixava o livro com o estraga-prazeres e saia bufando.

Mas a graça estava no jeito dele ler. Ele lia todo errado. Por exemplo, A Rainha do Nilo, um livro sobre a Cleópatra, virava A Aranha de Nylon. Era esse tipo de humor.

Bom, eu me lembrei dele agora porque em Mônaco,está havendo uma exposição sobre as Rainhas do Nilo, de Nefertiti até a Cleópatra. E um dos points  mais visitados é a vitrine com a bijuteria que a Cleópatra, representada pela Liz Taylor, usou no filme.

Mônaco parece mesmo ser uma coisa de nylon. Mas se você quiser dar uma olhadinha na exposição, prometo não estragar sua curiosidade. Vá no www.grimaldiforum.mc . Ou curta o verão mediterrâneo.

  

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 15:14:14

Envelhecendo com os livros

categorias: relíquias

Quando eu entro num sebo, confesso que não procuro muito aquele livro que desejo. Ou ele chega até as minhas mãos, ou é melhor deixar prá lá. A própria Dona Denise sempre comenta :" você não procura, você acha". Mal sabe ela que este sempre foi o lema do livreiro Pierre Berès, que faleceu na semana passada, aos 95 anos. Sua livraria perto do Arco do Triunfo, em Paris, foi um ícone dos sebos. Apesar de vender livros raríssimos ( aquelas primeiras edições, tipo Pascal ou os vinte volumes da Comédia do Balzac com dedicatória do Honoré para a mãe do escritor), Monsieur Berès não era um sujeito fechado. Aliás, amigo de Picasso e Matisse ( a exposição Jazz do Matisse foi feita na sua livraria), era uma figurinha carimbada na França.

Claro, há críticas. Afinal, colecionador tem lá suas faltas de escrúpulos. Isso sem contar com o fato que a livraria não fechou durante a invasão nazista, coisa que sempre causou desconfianças. O escritor centenário Ernst Junger em seus diários sempre cita a colaboração do livreiro com ele, mas isso pode ter várias interpretações.

De qualquer forma, Berès estava, desde 2005, aposentado, morando em Saint Tropez. Ele vendera  doze mil livros por 35 milhões de euros e doou, para a Biblioteca Nacional um livro muito interessante. Uma Cartuxa de Parma do Stendhal com o início modificado , após as críticas que Balzac havia feito. Mas que nunca teve maior divulgação.

Fico pensando , esse amor a livros, talvez dê alguns anos a mais, para nós , a lembrança imediata seja o longevo José Mindlin.

Quem sabe , amar os livros seja o segredo.

E assim, que eu não procure a longa vida, mas que ela me ache. 

 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 11:56:00