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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2008, 05

05.12.08

Hoje eu estou sem toga

categorias: thanks heaven

Essa aí é Valeksa , a líder da Gaiola das Popozudas.Entre seus sucessos temos "Hoje eu estou sem calcinha", "Agora sou solteira (então tudo bem )" "Larguei o meu marido ( e vim pro funk)" e "Fruta tem na feira".

Foi o grupo dela a maior atração no Complexo do Alemão , na recepção ao presidente e ao governador do Rio de Janeiro.

Pensando bem, num ambiente assim, até que o discurso do sifu foi comportado.Acho que nem o Cícero , se é que ele era chegado na fruta, faria uma retórica mais equilibrada.

Bom fim de semana. E se fizer calor, aproveitemos a vida.

Sem toga.

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 15:09:09

Retórica

Outro dia a Dona Denise estava elogiando a retórica do Obama e é verdade, o rapaz sabe falar as coisas. Já há quem o compare com Cícero, o maior orador de todos os tempos e pode ser mesmo,  a comparação não é de todo absurda. Se examinarmos seus discursos, veremos que ele segue , pelo menos em três aspectos, o modelo ciceroniano.

Primeiro, ele gosta muito de fazer sequências de três argumentos. Isso, em latim, se chamava tricolon. Cícero o utilizava a rodo. E , ironia , seu arquiinimigo César criou o maior tricolon da história ( veni, vidi,vinci)Pois Obama sempre que podia usava a seguinte frase: "a grandeza dos EUA não está apenas na altura dos seus prédios,no poder das suas forças armadas,no tamanho da sua economia."

Obama também, como Cícero, abusa das anáforas ( repetição de termos no começo das frases) e epíforas ( no final delas) . Isso sem falar nas suas antonomásias ( quando não se fala quem é ou aonde é e sim dá-se a sua característica ). É o pregador da Georgia, é o jardim de Des Moines , o pórtico de Charleston e assim por diante 

E tal como Cícero, Obama é um novus homo, pois não tem família famosa ou foi herói de guerra. Assim, Obama adota como parentes ilustres LIncoln, Roosevelt , Luther King , assim como Cícero se dizia da família metonímica dos Crassos , Cipiões e Catões.

Mas claro, tudo é e será sempre economia.

Pois se a crise não for debelada no seu governo, pronto, todos vão mandar o Barack Cícero sifu , como diz o nosso orador de Garanhuns.

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 14:06:37

Rick the lonely rider

categorias: recuerdos, kino

 Na relação de filmes que vão estrear neste fim de semana, há o destaque para um faroeste com o Ed Harris, chamado Appaloosa. Eu pensava que era um remake do filme estrelado pelo Marlon Brando, mas parece que não tem nada a ver, além do título. O filme do Brando, por sinal, é muito bom, sobre a obsessão de uma mulher por aquele tipo de cavalo. Brando não o vende de jeito algum, e a dona faz de tudo para prejudicá-lo. A crítica nunca falou bem do filme antigo e parece que o novo também não mereceu muitos elogios. Mas esse tipo de cavalo me faz lembrar um episódio que ocorreu comigo, na década de noventa.

O meu filho era pequeno, tinha lá uns quatro , cinco anos. Nesta idade de criança, os pais se sentem na obrigação de tirá-los da poluida cidade, em busca do ar puro do campo. E assim, a Dona Denise me convenceu a irmos até a casa de um amigo dela de faculdade, que ficava numa cidade do Vale do Paraiba. Era num condomínio, coisa tão chique que possuia além da óbvia piscina, quadras de tênis e ...um haras!

Bom, o amigo dela era um feliz empregado de uma estatal e logo percebi que vários amigos dele, colegas de trabalho, também  era da mesma companhia. De noite, enquanto um churrasco rolava, pude perceber que todos eles eram proprietários de cavalos. E havia um certo desprezo em relação à minha família, pois o único cavalo que eu possuia nem era meu, era o Tokundó, um cavalo-de-pau do meu filho, de brinquedo. 

Ou seja, eu que saberia discorrer sobre Mahler, sobre Balzac, sobre Sugar Ray Leonard, sobre Vinicius de Moraes e filmes do Antonioni, era, na visão unânime deles ( e de suas esposas, também metidas a amazonas), um nada.

Nisso, resolvi tomar alguma providência. Indo até o banheiro, vi, num corredor,uma pilha de revistas sobre cavalos, naturalmente. Peguei a primeira da pilha; falava justamente das qualidades do appaloosa! Então eu me tranquei e li, durante uns dez minutos tudo sobre a raça. Pronto, já estava devidamente gabaritado para dar o troco. Coloquei a revista no meio da pilha, voltei para a sala onde bebia-se uisque doze anos , esperei a Dona Denise por um menino na cama e no primeiro silêncio, educadamente, pedi licença para discordar daqueles nababos.

"Não, nem mangalarga, nem marchador, nem árabe, nem nada. Nada se comparava a um appaloosa. Eu tenho contacto com essa raça desde 1966 ( e era verdade, pois foi quando o filme do Brando tinha sido feito)  e era um outro tipo de cavalo O que mata a gente são os custos com veterinário e as vacinas..." Todos concordaram, na hora..

Imediatamente ,também,passei a ser um semi-deus. Todos me acharam um gênio. Até as mulheres amazonas, se eu quisesse, permitiriam cavalgadas do garanhão de araque naquela madrugada e ,muito provavelmente, os esposos iriam compreender que elas tinham mesmo que sentir todo o feitiço do cavaleiro solitário que eu havia me tornado .

Nunca mais vi aquele povo. Até que, ja era governo Lula, encontrei o colega da Denise. Ele pareceu-me envelhecido, acabadão, com barba mais para a branca. Estávamos na estação São Bento do metrô. Com a privatização, ele havia perdido o emprego, ele e os outros, um ou dois tinham ficado na empresa. Vendera tudo, morava agora em Santo André,ou era Osasco, ou Ribeirão Pires, só sei que ele ainda tinha que pegar um trem para chegar na sua casa. Vivia de bicos, dando cursos que um colega deles da Economia arrumava. E, com um sorriso de nostalgia, perguntou sobre o meu plantel de appaloosas. E eu, solidário com a sua crise, disse-lhe que também tinha me desfeito de todos eles,"você sabe, os custos com a educação do menino..." Ele acenou com a cabeça, compreensivo. E ele partiu, dentro de um vagão lotado.

Eu sai , para a rua, naquele fim de tarde.

E como todo mocinho de filme de cowboy fui me sentindo solitário.

E havia o por do sol. E o sol era velho, sim, e ele, sempre ,se põe no velho oeste.

 

 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 12:15:49

No caminho dos Guermantes

Na grande obra do Proust há dois caminhos, o do Swann ,um judeu aburguesado e dos Guermantes, os aristocratas. Uma hora os dois caminhos se encontram e mais eu não falo, porque muita gente não leu os sete livros e não convém estragar , contando o final.

Claro, Proust valoriza em demasia o lado aristocrático, mas mesmo assim fez, no Sodoma & Gomorra ( o quarto livro) uma crítica ao Senhor de Guermantes. Pois ele falou algo "num tom inofensivo, sem um traço da vulgaridade que ele tão comumente exibia".

Na mesma frase, ele  compara o duque com o Burgomestre Six, do Rembrandt, pela sua gravidade gentil.

Se o duque era vulgar, imagine o que o Proust diria sobre o médico ( ou quem fez o discurso) que disse ao paciente que ele sifu. 

 

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 10:17:49

Sea food

Há um pouco, aliás, há muito moralista bobo , na questão do uso da expressão sifu num discurso do presidente. Todos sabem que da sua boca o palavrão é useiro e vezeiro.

O que mais me preocupa é que um povo que tem ciência da enorme crise que passará o mundo no ano que vem, acha que sua vida econômica (79%) vai melhorar.

Como já dizia o padrinho Alcides, "Deus te oiça".

  • criado por  Rick criado por Rick
  • Postado em 08:27:41