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Vamos supor que haja interrupções na programação de todas as televisões de um país, para pronunciamentos de uma autoridade. Vamos supor, para agradar os meus olhos, que seja a bela Ivete Sangalo.
E que de 1999 até hoje, ela faça 1816 pronunciamentos , por 1179 horas .Às vezes até quatro por dia.
Olha, eu acho que chegaria uma hora e eu não aguentaria mais ver a bela baiana.
Mas os números dizem respeito aos discursos televisivos, em cadeia nacional, do excelentíssimo Huguíssimo Chavez, o venezuelíssimo e bolivariano da camisa vermelha.
Se ser peronista é ser de esquerda , bom, isso permite altas discussões. Mas que durante a sua vida, Jorge Luis Borges, visivelmente contrário aos seguidores de Peron, foi tachado de direitista e fascista, isso todos que viveram naquela época se lembram .
Mas nada mais volúvel que a ideologia da esquerda argentina. Ainda mais se ela se associar a uma mania nacional : exumar e/ou transferir restos mortais.
Passou na Câmara de Deputados Argentina uma lei que propõe ao governo da Cristina uma ação de requisição dos restos mortais do escritor , que estão em Genebra, para o túmulo da família que fica em Recoleta.
Claro, a viúva Maria Kodama é contra e duvida muito que o governo suiço aceite essa presepada.
O mais interessante é lembrar que os peronistas apedrejaram a casa dele e o fizeram fugir para Montevidéu. E um dos presentes é o agora deputado autor da lei. Supõe Kodama que o governo argentino, quando chama Borges de um ícone, pretende simplesmente ganhos turísticos.
A Associação Argentina de Escritores , a maior agremiação do país, acha que é hora de esquecer as desavenças e trazer o viejo para su chacarita.
Como bem dizia o maior escritor argentino do século ( quiçá de todos os séculos, embora sempre devemos nos lembrar de Lugones, Hernandez e mesmo Sarmiento) " os peronistas não são nem bons , nem maus. São incorrigíveis".
Nada como um bom blues, filmado pelo Martin Scorsese.
Eu só sei que hoje terei que atrasar o relógio . Acho que o dia ficará mais curto, mas pode ser o contrário . Penso então nas sextinas de Dante .Tenho pensado muito no poeta, ultimamente .
A sextina, seis sextetos e mais um terceto final, em decassílabos, foi a grande obra de Arnaut Daniel, mas muito escrita também por Dante, Petrarca, Camões. Serve para narrar frustrações no amor, decepções , enfim, o blues. Aquele tipo de mulher com coração de pedra.
Aí vai apenas o primeiro sexteto, com métrica,claro .
Al poco giorno e al gran cerchio d'ombra
son giunto, lasso, ed al bianchi de colli
quando si perde lo color ne l'erba
e mio disio però non cangia il verde
si è barbato ne la dura petra
che parla e sente como se fosse donna.
Para o dia mais curto e seu nublado
Me junto ,ai, e as brancas colinas
Que agora perdem a cor do verde
E meu desejo não o traz de volta
Que era nascido na dura rocha
Que fala e ouve como mulher.
Quem teve a oportunidade de ler Henry IV , esta maravilhosa peça do Billy, deve se lembrar que o rei Henry IV tinha um filho, o príncipe Hal, que era da pá virada. Sempre em festas, em animações, em eventos, em tiração de sarro, era o maior zoador. Mas quando virou rei, Henry V ficou sério e parou com toda a farra.
Claro, ele fazia a brincadeira e todo mundo achava graça. O próprio Julinho um dia me confessou não gostar muito dele, afinal, havia toda a arrogância , todos eram obrigados a rirem daquele playboyzinho filhinho de papai ( e o papai era simplesmente o rei).
Um dos amigos do príncipe, mas o mais sério, uma noite, chega e pergunta onde ele está,o maluco e esperto príncipe de Gales , que com sua turma alopra o mundo e segue em frente .
(The nimble-footed madcap prince of Wales and his comrades that daft the world aside and bid it pass)
Vendo o palanque pac , as festinhas da Martinha para a Dilminha , enquanto rola uma crise que não é marolinha, chego a conclusão que estamos sendo governados pelo príncipe e sua turma.
Que nunca levará a sério o que está rolando.