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Acabei de ler A Cerejeira do Tchecov na versão do meu ídolo Tom Stoppard.A peça teve uma pré-estreia em janeiro em Nova York e deve estrear prá valer em Londres , em maio deste ano. Um dos atores foi o Ethan Hawke ( que fez o rapaz do Antes do Por do Sol e antes do amanhecer).
Stoppard cortou algum palavrório e a fez mais ágil. Mais irônica, mais leve.
O livro me foi trazido pelo Julinho., A Dona Denise me perguntou se eu não ligava pelo fato de ser uma obra que ninguém leria, que nem tinha sido montada ainda comercialmente e só seria (esqueci de dizer, o diretor é o badalado Sam Mendes , o cineasta do Beleza Americana e agora o Muito mais que um sonho) vista por poucos, e , certamente, nunca por mim.
Disse-lhe que já estava acostumado.
Mas ela me conhece mais que eu possa negar que seria legal ter alguém que também ficasse chateado com os barulhos do machado cortando a árvore , no meu dia -a -dia..
Era uma tarde quente como hoje, em 1976. Um colega meu disse que teriamos uma aula muito importante, que era melhor eu assisti-la. Mas a verdade é que eu não estava nem um pouco interessado nela.
Eu não estava apaixonado, não estava casado, não pensava num time, eu só sentia calor. Resolvi correr o risco. Iria estudar sozinho, depois, não queria assistir ao ula alguma.
Não sei como voltei para casa, só sei que foi de ônibus e passei antes no centro. Lá , comprei um disco do Caetano, Qualquer coisa , e passei a tarde inteira ouvindo aquele belo disco. Além de ficar prá lá de Teerã, achei a maior importância, imaginei-me fazendo samba e amor até mais tarde, me lembraria tempos depois de uma moça bonita que me cantou drume negrita e imaginei-me protegido, como Jorge da Capadócia.
Mas o mais importante,sem dúvida , foram as três versões bossa beatles que o disco continha. Eloeanor Rigby, que falava das pessoas solitárias. For no one, que eu só entendi depois , como as marcas das lágrimas somem e Lady Madonna, que eu pensei que see how they run poderia ser traduzida assim, que corrida vã...
O disco qualquer coisa saiu junto com jóia, mas para mim, esse é o grande disco para se passar uma tarde calorenta como a de hoje.
E assim, sinto-o. Da maior importância.
Se alguém perguntar quem é o maior dramaturgo norueguês, claro, é Ibsen. Se alguém quiser saber o nome do maior compositor deles, certo, é Grieg.
Mas e o maior escritor, assim, o romancista da lingua?
Bem, aí surge um nome e depois ele desaparece.
Knut Hansum, autor de um romance importantíssimo, Fome e outro menor , mas mesmo assim muito bom, Pan, nasceu em 1859 e o povo da Noruega está tendo alguma dificuldade em aceitá-lo .
O interessante é que em 1929 , escritores como HG Wells, Thomas Mann ( que quando soube que Hansum ganhara, em 1920, o Nobel , declarou que tinha sido o maior ato de justiça de todos os tempos daquela premiação) , André Gide e Gorki, mandaram-no as mais efusivas congratulações. E mais, Kafka, Brecht e Henry Miller se diziam sempre em débito com ele , isso sem falar em Isaac Bashevis Singer, que o chamava de pai da literatura moderna.
E então, veio o nazismo e Hansum, pró -Hitler, defendeu a invasão alemã, dedicou obras para Goebbels e passou , depois do fim da guerra a ser um incômodo , como todos os velhos macróbios são.
Agora, sem muito estardalhaço, tenta-se resgatá-lo ( ainda que ele não tenha sido totalmente esquecido, pois os seus livros continuam sendo editados em várias linguas, inclusive no Brasil, pela Nova Fronteira) .
Oscar Wilde dizia que se uma obra precisa saber algo sobre a vida do autor, é sinal que ela é fraca. Mas é muito comum acontecer isso, haver a contaminação de uma pela outra.
E é isso que acontece, para o bem ou para o mal.
Porque a Motown ,MIchael e eu , hoje cinquentões, já tivemos 25 anos , Isso foi em 1983...
Tanto eu quanto o Julinho gostamos muito de Tiepolo. Mas temos que reconhecer que este veneziano , se no século 19 já não era destaque, imagine no século 21.
Henry James o chamou de fruto tardio e nem quis falar mais . Ruskin , que só pensava em Veneza, mal o cita.
Mas ontem, que era o seu aniversário, eu percebi que Tiepolo sofre de mais uma injustiça. O Terra está me cozinhando faz quase um mês. Não consigo colocar imagens no blog.
Nem Tiepolo dá jeito. E de tanto esperar o Terra corrigir a falha, acho que quando algum quadro dele pintar, ele será um fruto prá lá de maduro.