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Eu tenho um primo, o Luciano, que , quando era adolescente tinha o estranho hábito de comer sal. Muito sal. Mas sal mesmo. De cobrir um bife de branco. De comer sal puro. E todos criticavam. Um tio nosso, muito gozador, apelidou-o de Salty Boy. E disse que ele deveria ir para Salt Lake City, para fazer demonstrações sobre as suas salgadas demonstrações.
O fato é que fizeram de tudo e acabaram tirando o sal em excesso da vida do Salty Boy; ele passou uma crise de melancolia. Começou a compor umas músicas meio darks ,mas como ele era adolescente, pode ter sido coisa da idade, independente do sal.
Mas a ciência prega lá suas peças. E isso que o sal faz mal é muito relativo. Pesquisadores da Universidade de Iowa comprovaram o óbvio, que vida sem sal não tem graça. Foram reduzindo a dosagem do sal em ratinhos ( sempre com eles , mas dizem que com o homem é a mesma coisa) e chegou num ponto onde os ratinhos não queriam fazer nenhuma atividade que lhe dava prazer. Nem catar ratinhas !
O meu cardiologista me manda tomar um remédio que me dá tosse. Diz que o sal é um veneno. Só me indica comidas sem gosto.
E , ultimamente, percebo que as ratinhas andam tão pouco atraentes...
Preciso entrar em contacto, urgentemente, com o meu primo Luciano e convidá-lo paraq comermos uma picanha bem salgada !
Outro dia o Reinaldo me pediu para contar uma estória que passamos juntos, quando eu quis ser jurado de um concurso de miss. Bom, essa estória merece uma redação mais caprichada e eu fico devendo. Mas posso contar um excesso que fizemos , e eu nem sei como.
Beber uma garrafa de uisque em dois, a noite a dentro, não foi nada de mais na minha vida e acho que de muita gente. Mas beber vinte e quatro garrafas de 600 ml de malt 90, numa tarde de sábado, a dois, isso é coisa que me causa espanto.
E lá se vão vinte e cinco anos...
Tudo começou num aniversário meu. Eu tinha feito uma festinha, era a primeira que eu fazia num apartamentinho em Perdizes , eu estava morando sozinho. Exagerado, comprei 48 garrafas de Malt 90 , uma cerveja fraca da Brahma, e elas lotaram praticamente a minha geladeira.Bom, a festa foi boa, mas os convidados preferiram beber uisque e assim, dos dois engradados, apenas um foi consumido. Ficou um engradado vazio, esperando alguém beber as vinte e quatro cervejas e assim eu devolvveria os cascos.Já havia latinhas, mas a cerveja era mais consumida em garrafa mesmo.
Meu aniversário caira numa quarta-feira e era sábado, e as cervejas atravancavam a geladeira. Nisso, recebi o telefonema do Reinaldo, ele não tinha vindo na festa sei lá o motivo e tinha um disco para me dar de presente. Assim, ele passou às três da tarde , presenteou-me com um disco dos Pretenders ( a banda era a coqueluche daqueles tempos) e começamos a beber cerveja e falar sobre os mais diversos assuntos.
Não faço a menor ideia qual foram os temas, qual foi o assunto. Mas ter bebido , per capita , doze cervejas ruins, só mesmo com um grande amigo...
Outro dia uma amiga minha me perguntou como era juntinho em espanhol. E eu, bobo, achei que ela queria ficar cerca a mi, mas não. De qualquer forma, ela aproveitou o cerca . Aquele cerca a mi, a ti , ficou na minha cabeça , onde eu tinha ouvido isso antes ?
Ah, sim ,numa versão mela cueca do Close to you, numa trilha sonora de alguma novela dos anos setenta, sim, eram uns tais Hermanos Castro! Hoje esses hermanos só governam Cuba e deles quero ficar lejos...
Mas eu continuei com esta música na cabeça. A mais tradicional é a dos Carpenters , que é aquela aguinha com açúcar. O meu guru, Paul Weller, fez uma versão com mais setimas que o próprio Bacharach, ficou legal, mas mais ou menos.
No fundo, no fundo, a versão definitiva é a do Isaac Hayes. Ela saiu num disco duplo , Black Moses , o seu melhor ( melhor que o Shaft e mesmo o Tucker) . A versão é muito adulta, porque Hayes colocou erotismo na sua voz, mas também melancolia ( na vida real , ele estava se separando da sua mulher) e a versão , com quase sete minutos de duração , só é superada por outra , que ele canta Never can say goodbye, que tinha feito sucesso com o Jackson Five.
Hayes ficou conhecido como Chef ,no South Park, mas foi muito mais que isso ( inclusive baixista e tecladista do Otis Redding).
Mas , voltando a minha amiga , ela quem ficar close to who? Cerca...
Será que é algum argentino ?
Quando eu era pequeno e jogava bola na cidade do Rio Grande, havia um termo que era terrível. Chamar alguém de prepotente. Seria o caso de um moleque maior que queria brigar com um tampinha. Era uma covardia. Ou então, o sujeitinho na sua casa, mandando na visita. Era uma coisa totalmente desbalanceada.
Bom, faz tempo que eu estou querendo falar sobre um dos maiores babacas do mundo, mas nunca tive a oportunidade. Iriam dizer que eu estava sendo prepotente. Bom, mas agora, ele que foi eleito uns dos cinquenta homens que podem tirar o mundo da crise, pode me enfrentar de igual para igual, assim como Aquiles enfrentou Heitor.
Trata-se do engenheiro, como eu, Carlos Ghosn. Nós, brasileiros, temos uma tendência de idolatrar qualquer babaca que o mundo destaca. Ainda mais quando sai do Brasil e fala em inglês. O seu inglês , diga-se de passagem , é passável, o seu francês ,melhorzinho. Ele é um brasileiro que nasceu aqui mas estudou fora. E tem como meta demitir e demitir. Mas quando a coisa complica, corre para verbas do governo.
Mas se você, caro leitor, ainda tem dúvida se ele ou eu somos as melhores cabeças , para sair da crise, vejam essa do tal Ghosn.
Ele quer relançar o Gordini , no Brasil, porque diz que as pessoas term saudade do carrinho...
Se é com esse cara que estamos esperando sair da crise, teremos mais uns sete anos de vacas magras.
Era uma tarde quente como hoje, em 1976. Um colega meu disse que teriamos uma aula muito importante, que era melhor eu assisti-la. Mas a verdade é que eu não estava nem um pouco interessado nela.
Eu não estava apaixonado, não estava casado, não pensava num time, eu só sentia calor. Resolvi correr o risco. Iria estudar sozinho, depois, não queria assistir ao ula alguma.
Não sei como voltei para casa, só sei que foi de ônibus e passei antes no centro. Lá , comprei um disco do Caetano, Qualquer coisa , e passei a tarde inteira ouvindo aquele belo disco. Além de ficar prá lá de Teerã, achei a maior importância, imaginei-me fazendo samba e amor até mais tarde, me lembraria tempos depois de uma moça bonita que me cantou drume negrita e imaginei-me protegido, como Jorge da Capadócia.
Mas o mais importante,sem dúvida , foram as três versões bossa beatles que o disco continha. Eloeanor Rigby, que falava das pessoas solitárias. For no one, que eu só entendi depois , como as marcas das lágrimas somem e Lady Madonna, que eu pensei que see how they run poderia ser traduzida assim, que corrida vã...
O disco qualquer coisa saiu junto com jóia, mas para mim, esse é o grande disco para se passar uma tarde calorenta como a de hoje.
E assim, sinto-o. Da maior importância.