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Era uma tarde quente como hoje, em 1976. Um colega meu disse que teriamos uma aula muito importante, que era melhor eu assisti-la. Mas a verdade é que eu não estava nem um pouco interessado nela.
Eu não estava apaixonado, não estava casado, não pensava num time, eu só sentia calor. Resolvi correr o risco. Iria estudar sozinho, depois, não queria assistir ao ula alguma.
Não sei como voltei para casa, só sei que foi de ônibus e passei antes no centro. Lá , comprei um disco do Caetano, Qualquer coisa , e passei a tarde inteira ouvindo aquele belo disco. Além de ficar prá lá de Teerã, achei a maior importância, imaginei-me fazendo samba e amor até mais tarde, me lembraria tempos depois de uma moça bonita que me cantou drume negrita e imaginei-me protegido, como Jorge da Capadócia.
Mas o mais importante,sem dúvida , foram as três versões bossa beatles que o disco continha. Eloeanor Rigby, que falava das pessoas solitárias. For no one, que eu só entendi depois , como as marcas das lágrimas somem e Lady Madonna, que eu pensei que see how they run poderia ser traduzida assim, que corrida vã...
O disco qualquer coisa saiu junto com jóia, mas para mim, esse é o grande disco para se passar uma tarde calorenta como a de hoje.
E assim, sinto-o. Da maior importância.
Deve ser agora, ou na outra semana, depois do carnaval, a matrícula dos alunos que tiveram a aprovação nos vestibulares tão disputados.
Em 1999 , um calouro chamado Edson foi morto numa piscina da Medicina da USP.
Isso mesmo, já faz dez anos e parece que ninguém mais se lembra.
Perder um filho , desde Príamo na Guerra de Troia , é dor imensa, mais até, é dor incomensurável.
Mas perder um filho por conta de trote é inacreditável.
Lembro-me da boçalidade dos veteranos no Colégio de Aplicação e depois na Poli. Diziam-me com o cinismo dos calhordas, que um dia seria eu o veterano e teria a chance de ,em outros, me vingar.
Não o fiz e ensinei meu filho a ser como eu. Veemente na condenação de tal prática.
Mas o que mais me entristece é que é gente como nós que ainda se recorda do calouro morto.
Os veteranos devem ter se formado, e hoje ocupam lugares de destaque na nossa sociedade.
Clinicando, por exemplo.
O Terra ainda não consertou o mecanismo de colocar fotos no blog, então vai só no texto. Mas acho que todos já viram nos jornais. É que houve uma reunião de sei lá quantos prefeitos para escutar atentamente a ministra Dilma. E no saguão, havia um fotógrafo que tirava fotos do senhor prefeito num cartaz, com a Dilma à esquerda e o presidente Lula à direita. Esse tipo de foto montada é meio tosca, mas nos distantes rincões do nosso patropi faz lá o seu efeito. Aliás, a nossa querida classe média, quando viaja para parques temáticos, topa fazer a mesma coisa, colocando a cabeça num painel do Pato Donald, ou do He Man ou da Mulher Maravilha.
Quando a oposição for dar uma prensa, o governo sartou de banda, dizendo que aquele fotógrafo não fazia parte do evento. Era uma coisa assim , como diria eu, no paralelo.
Isso me fez lembrar o estranho caso de Bi , o irmão do Marcha Lenta. Bi era um rapazote mulherengo que passava seus carnavais numa cidade do interior, onde o carnaval era no clube, no salão, com cervejada e casais dando volta ao som da briosa orquestra.
E ele dava uma volta com uma e o fotógrafo tirava a chapa. Depois ele trocava de parceira. E o fotógrafo mandava nova pose. E mais outra e mais outra; assim, foram mais de mil colombinas.
E mais de mil fotos.
Na hora do revelou tem que pagar , o fotógrafo foi atrás do moço , que tinha dançado com toda a parte feminina interessante da cidade .Que não achava justa a cobrança. Afinal, aquilo não fazia parte do seu evento, como diz o governo de agora.
Mas o fotógrafo não poderia ficar no preju.
E assim foi feito o acordo. Ele cobriria algum , mas desde que o fotógrafo estampasse sua legião de carnavalescas na frente da loja, para que toda a cidade pudesse admira , por um bom tempo, quem era o grande Bi.
Dizem que ele conseguiu muito mais que uma mera volta no salão com muitas delas, mas isso pode ser papo de pescador .
Dizem também que nos rincões, uma foto com o presidente e com a Dilma pode valer ouro.
Mas pode ser que não.
Durante a ditadura militar, viveu-se na ilusão do Brasil grande, do técnico, do bem administrado, do pais do futuro, do fim do bacharelismo, das grandes obras , do ninguém segura esse pais.
Quem morou em São Paulo , desde a década de setenta, já ouviu falar num politécnico chamado Plinio Assmann. Ele é o pai da matéria, como dizia o Osmar Santos. O homem que fez o metrô sozinho , mais a Cosipa, mais todas as estradas de São Paulo, sem falar nos aeroportos, nos estádios de futebol e nas represas , as hidroelétricas e o porto de Santos.
Bom , talvez ele não tenha feito tudo isso, mas ele fará com a cabeça que sim, num processo de modéstia.
Quem teve a oportunidade de trabalhar com ele sabe o seu método. Escolhido por compadrio político ( não foi o PT que criou o companheirismo) , ele promovia, de cara, uma noite de São Bartolomeu, demitindo centenas de pessoas, desde que não agasalhadas por padrinhos, porque ele nunca foi homem de peitar político. Depois, rodeava-se de cupinchas e babaovos, que só sabiam falar uma frase :
"Só mesmo o Plínio, para sacar isso. Só mesmo o Plínio para tomar este tipo de decisão, tão corajosa.Só mesmo o Plínio, " e por aí vai.
Vi que o FHC , na posição de presidente do Conselho da OSESP demitiu o enfant gatê John Neschling. O homem que só não compôs as bachianas por que elas são muito fracas. Um maestro receber cem mil reais mensais, um contrato sigiloso e uma série de asseclas na imprensa, tudo isso é acintoso, se for verdade. Mas se for mentira, é ainda mais vergonhoso.
Se fosse com o Plinio Assmann, ele não demitiria o Neschling, ele nunca foi homem de peitar o capo. Faria assim o seu processo de engenharia. Demitiria os segundos violinos ( já temos os primeiros e eles são muito bons), demitiria os flautistas pois eles são do time das madeiras e não poderia admitir aqueles metais. E assim vai.
Só mesmo o Plínio, diriam os críticos de música clássica...
Quem acompanhou futebol no finzinho dos anos setenta, começo dos anos oitenta , deve se lembrar do fino e eficiente futebol do zagueiro Oscar. Ele jogou na Ponte com o Pollozzi, no São Paulo com Don Dario Pereyra e com o Luisinho, na inesquecível seleção do Mestre Telê. Pois ele inaugurou um museu Oscar, na aprazível cidade de Águas de Lindoia.
Pois aí vai a minha contribuição à causa.
Uma vez, ele ainda era profissional, ele passou uns dias de férias em Monte Sião ( acho que lá já é Minas, é quase na fronteira com São Paulo)E o pessoal resolveu convidá-lo para um rachão. Ele, com medo de uma contusão, mas sempre muito educado, aceitou jogar no gol.
Quem mais vibrou foi o Carlos, um colega nosso da Poli, o impagável Marcha Lenta. Pois na primeira reposição de bola, o goleiro Oscar saiu jogando com o Marcha. Ele saiu com boa e tudo.. Valeu !
Na segunda, ele se atrapalhou, perdeu a bola e quase o time deles tomou um gol bobo. Oscar passou a sair pelo outro lado. E o Marcha só pedindo a bola, e ela, claro, não chegando nos seus pés. Aí ele se esquentou e gritou:
"Oscar, pô , tô jogando, baralho!"
Aí eu conheci a educação e cortesia do zagueirão. Oscar não falou nada.
Mas continuou sem passar a bola para o Marcha.